Padre Ricardo


Reflexão de um padre jovem

Venho através deste pequeno texto partilhar um pequeno “balanço” que faço desse meu primeiro aniversário de ordenação sacerdotal. No último dia 21, completei um ano que fui ordenado Padre, em Contagem, cidade onde nasci. Muitos paroquianos da Praça Seca estiveram presentes na ordenação e podem testemunhar a profundidade do mistério celebrado.
Daqui da paróquia partiram três ônibus e algumas pessoas que foram de carro próprio.

O texto traz uma mistura de fatos. Foi brotando naturalmente. Por isso não tenho a intenção de escrever algo de forma metódica e sistemática.
Quem foi à missa no dia 21 de junho passado (domingo) deve se lembrar da
temática da liturgia. Só para refrescar a memória, retomo aqui um trecho do evangelho. Jesus está na barca com os discípulos fazendo a travessia do mar quando começa uma “tempestade”. Os discípulos ficam com medo e Jesus dorme tranqüilamente na barca. Jesus é acordado pelos discípulos e põe fim à tempestade (cf. Mc 4,35-41). Fiquei feliz em meditar esse texto logo no dia que estava fazendo aniversário de ordenação. Por isso, tentei extrair uma mensagem para minha vivência pessoal, a partir desse texto.
Refleti que o padre deve recorrer a Jesus nos momentos de tempestade, ou seja, nas crises da vida, nada melhor que recorrer àquele que nos chamou: “vamos para a outra margem” (Mc 4,35). E de fato, aquele que nos chama nunca nos deixa “na mão”. Sem o auxílio de Jesus, o barco do padre corre o risco de afundar. Nosso povo costuma dizer que o “padre é um homem de Deus”. Mas ele é um homem de Deus à medida que ele busca Deus. O maior contra-testemunho que o padre pode dar é quando ele não busca a intimidade e a confiança em Deus. “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4,40).
Seguir Jesus é estar disposto a enfrentar as tempestades e nos momentos de fragilidade confiar que Jesus não deixa o “barco afundar.” E aí o provérbio se faz verdadeiro: “depois da tempestade vem a bonança”. Esse parágrafo foi fruto de uma reflexão pessoal.
Agora partilho alguns momentos fortes de minha ordenação. Uma das cenas mais belas foi quando o bispo ungiu minhas mãos e amarrou-a com uma fita. Minha mãe se aproximou e tirou a fita. Naquela cena, senti Deus falando através de minha mãe aquilo que para mim é um apelo: “filho entrega teu coração.” Antes de qualquer coisa, sinto que sou convidado a me entregar nas mãos de Deus. Durante a ordenação o bispo disse algumas palavras carregadas de sentido e por isso tento não esquecer. Repito essas palavras constantemente para que elas não se percam com o tempo. Na homilia ele me convidou a ser um homem da Palavra. Também reforçou o que ele chamou de “vivência litúrgica”, ou seja, viver a profundidade do mistério celebrado na eucaristia. Pediu que, se possível, eu participasse diariamente da celebração da eucaristia. Junto a isso, fez menção à vivência da caridade (amor). Mas ainda tem uma frase que ressoa fortemente em meu coração. Ele me entregou o cálice e a patena e disse a seguinte frase: “Padre Ricardo, toma consciência do que fazes e coloca em prática o que vais celebrar, conformando sua vida com a cruz do Senhor.”
Depois de um ano como padre missionário do Sagrado Coração, estou sentindo que aos poucos vou amadurecendo no caminho espiritual. Com minhas quedas e tropeços sigo em frente progredindo na fé. Hoje já percebo que amadureci bastante. Sinto-me renovado. São Paulo me ajudou a chegar a essa conclusão: “se alguém está em Cristo, é uma criatura nova.” É assim que me sinto: um homem novo.
Outro dia refletia sobre uma frase que foi aplicada a Santo Inácio de Loyola que assumi para mim. “Inácio seguia o Espírito, não se adiantava a ele. Desse modo, era conduzido com suavidade para o desconhecido... Pouco a pouco, o caminho se abria e ele o percorria, sabiamente ignorante, com o coração posto simplesmente em Cristo.” Como Inácio me coloco como seguidor do Espírito.

 
Pe. Ricardo mSC