Padre Ricardo

É tempo do meu Advento

No último número do nosso jornal, escrevi sobre o sentido do Advento de modo geral e também apresentei uma reflexão acerca do primeiro domingo do Advento. Nesse pequeno texto, irei fazer uma reflexão dos demais domingos deste tempo litúrgico. Antes, porém, gostaria de apresentar como motivação inicial deste esboço a primeira estrofe de um canto que sempre nos acompanha neste período.

“É tempo do meu advento da vida surpresa no meio de nós. Por isso, conclamo profetas que ao longo da terra ele vem sua voz. É tempo de um Isaías, que atento aos rumos da vida, indiquem um caminho novo e a libertação para todo o meu povo”.
Os dois primeiros domingos refletem a segunda vinda de Cristo, na glória. Os textos (Is 40,1-5.9-1/ Sl 84/ 2Pd 3,8-14/ Mc 1,1-8) do segundo domingo nos fazem um apelo: a conversão. O Evangelho de Marcos vê como início da Boa-nova o apelo à conversão, lançado por João. Assim também Isaías conclama o povo para preparar um caminho para Deus, que reconduziria os cativos. É um convite à mudança. Assim deviam preparar a volta para Deus convertendo-se. O segundo domingo do Advento é um forte convite a preparar os caminhos do Senhor com a finalidade do encontro com Deus. Temos dois motivos para nos convertermos: a mudança de vida e a construção de caminhos que conduzam a Deus.
A liturgia do terceiro domingo do Advento está banhada de alegria. É o antigo domingo “Gaudete” (alegria). Mas por que se alegrar, se Ele ainda não chegou? Essa é a chamada alegria antecipada, pois se aproxima o dia da chegada (Natal). Todo o cenário celebrativo será marcado por uma alegria contida. A cor litúrgica será o róseo. As leituras (Is 61,1-2a. 10- 11/ (Sl)Lc 1, 46-50.53-54 /1Ts 5,16-24 / Jo 1,6-8.19-28) nos colocam nessa dinâmica. Novamente, no Evangelho, aparece a figura de João Batista. Mas dessa vez a ênfase está sobre o testemunho. Essa palavra nos remete à pessoa que fala daquilo que viveu como experiência pessoal. O testemunho cristão tem a alegria como seu “carro-chefe”. A Igreja, nesse dia, celebra a alegria de quem vive na intimidade de Deus. Em Isaías percebemos essa alegria que se manifesta na pessoa que foi revestida pela salvação divina. Em Maria, através do Magnificat, a alegria acontece por tudo aquilo que Deus fez em sua vida. Assim, a alegria é o termômetro para medir a qualidade do testemunho.
Com o quarto domingo, o Advento chega ao auge. Se observarmos as leituras (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16/ Sl 88/ Rm 16,25-27/ Lc 1,26-38), iremos constatar que Deus promete e o homem acolhe sua promessa. O Evangelho traz o pleno cumprimento de todos os sinais que anunciam a vinda do Salvador. A promessa feita a Davi, de que sua descendência teria seu trono firmado para sempre, realiza-se no filho de Maria. O sim de Maria representa a fé da humanidade e a disponibilidade com que a Igreja quer assumir o Mistério do Natal.
Um colega partilhou outro dia uma idéia que também comungo: ele acha o tempo do Advento o mais bonito do ano litúrgico. Ele indicou um belo texto de Santo Anselmo (século XII), cujo título é “o desejo de contemplar a face de Deus”, para aprofundar o sentido do Advento. Finalizo com um trecho do texto sugerido pelo colega.
“Vamos, coragem, pobre homem! Foge um pouco de tuas ocupações. Esconde-te um instante do tumulto de teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te absorvem e livra-te das preocupações que te afligem. Dá um pouco de tempo a Deus e repousa nele. Entra no íntimo de tua alma, afasta tudo de ti, exceto Deus ou o que possa ajudar-te a procurá-lo; fecha a porta e põe-te à sua procura. Agora fala, meu coração, abre-te e diz a Deus: Busco a vossa face; Senhor, é a vossa face que eu procuro(Sl 26,8). E agora, Senhor meu Deus, ensinai a meu coração onde e como vos procurar, onde e como vos encontrar”.

 
Pe. Ricardo mSC